POLÍTICA

Vereador cassado em 2017 terá de ser indenizado em cerca de R$ 500 mil pelo município

Foto Divulgação

 

Uma decisão do STF encerrou essa semana uma batalha judicial que iniciou no longínquo ano de 2017, após a Câmara de Vereadores de Carazinho ter decidido pela cassação do vereador Clayton Pereira, na época eleito pelo Solidariedade. A decisão considerada praticamente inédita determina que Clayton seja indenizado pelo município em função da cassação ter sido considerada irregular. O valor pode chegar a R$500 mil reais...Os recursos impetrados pela Câmara e pelo município foram negados pelo STF, gerando o passivo que terá que ser custeado com dinheiro público. O vereador foi cassado, na época, por quebra de decoro parlamentar em função de irregularidades descobertas na prestação de contas de uma viagem a Porto Alegre. O valor da nota era de 189 reais...

 

Seria cômico, se...

O episódio seria cômico se não fosse trágico, uma vez que apresenta ironias, que só mesmo a dinâmica da política consegue produzir... A primeira é o fato de Clayton ter sido cassado em uma sessão presidida pelo então vice-presidente da Câmara, vereador Tenente Costa, uma vez que o presidente, Estevão De Loreno, foi o denunciante; a segunda ironia é que o relator do processo foi o ex-vereador Daniel Weber. Na eleição de 2024, Clayton concorreu a vereador pelo MDB, partido de Tenente Costa que concorreu aliado ao PP de Daniel Weber e ao PSB de Estevão de Loreno. 

 

Ironia

A terceira ironia é que na época os vereadores que votaram contrários à cassação foram Alaor Tomaz e o hoje prefeito, João Pedro Albuquerque, que agora terá que pagar a conta de centenas de milhares de reais em razão da decisão equivocada da Câmara na época...

 

O mundo gira...

...Mas a maior de todas as ironias é que o escritório de advocacia que defendeu o ex-vereador – hoje suplente em oposição ao governo - e garantiu a decisão favorável do STF é o Albuquerque de Azevedo Advogados Associados, através do advogado Norton Lorenzi, escritório esse que o prefeito é sócio. Em contato com esta coluna, João Pedro, ao mesmo tempo que lamentou o fato do município ter que arcar com este custo, afirmou que o mais importante “é que se fez justiça”...Como diz o ditado: “o mundo não gira, capota!”

 

Pressão

Falando em cassação de vereador, a CPI do Guardião-Parte II, que agora tem como alvo o ex-presidente da Câmara, vereador Bruno Berté (PDT) deve ser votada na próxima segunda-feira. Segundo o vereador Tenente Costa, como a CPI trata de graves irregularidades que teriam sido cometidas pelo ex-presidente, caso o atual presidente, vereador Adriel Machado (PSDB), continue insistindo em não colocar em pauta, ele mesmo pode ser acusado de prevaricação. A pressão tá grande...

 

A quem interessa a divisão? 

Historicamente, a política em Carazinho sempre foi considerada acirrada, o que não necessariamente é negativo, uma vez que o debate de ideias é saudável, apesar de muita gente atribuir a isso o fato de a cidade não ter crescido tanto quanto poderia...O certo é que oposição e divergência sempre houve, porém, nunca antes na história se viu um nível tão baixo na disputa por narrativas na política carazinhense. O problema não são as críticas, mas quando essas críticas viram escárnio nas redes sociais, os limites começam a ser ultrapassados. Portanto, a pergunta que não quer calar diante deste cenário lamentável é a quem interessa dividir Carazinho entre “nós e eles”? 

 

Vídeo editado

Além de publicações sensacionalistas e de mau gosto nas redes sociais, alguns posts tem apostado em “fake news” grosseiras. Um exemplo é o vídeo do Stock Center, onde o prefeito aparece fazendo propaganda escancarada para a nova rede atacadista que está se instalando na cidade. Segundo João Pedro, ele realmente gravou um vídeo comemorando a vinda de uma nova empresa que irá gerar empregos e fortalecer Carazinho como um polo de comércio regional. Porém, no vídeo que está circulando, sua fala foi editada para parecer que ele estava fazendo propaganda do novo atacado. Isso é enganar a comunidade...

 

Garantia

Outra mentira, de acordo com o prefeito, que irresponsavelmente vem sendo amplamente divulgada pela oposição é de que vai faltar dinheiro para pagar o funcionalismo. João Pedro garantiu à coluna que isso não tem chance de acontecer. Ele reconhece que há um cenário desafiador para as finanças do município, como o pagamento do Descongela, a dívida com a Previdência, o endividamento do HCC, mas que são problemas herdados de governos anteriores. Além disso, os financiamentos que vem sendo feitos no atual governo, como para a Saúde, por exemplo, estão sendo contratados com a metade dos juros dos financiamentos feitos na gestão de Milton Schmitz, a exemplo do que foi feito para construir o novo Centro Administrativo.

 

Reação

Por essas e tantas outras, a decisão a partir de agora, segundo o prefeito é combater as “fake news” na Justiça. A mudança de postura da gestão iniciou com o rompimento com os vereadores que se diziam da base, mas na prática não defendiam o governo, e não devem parar por aí. “Até agora, vínhamos nos esforçando no sentido de construir um governo de coalizão em nome de um propósito maior, mas diante dos ataques recorrentes, estamos sendo obrigados a reagir”, afirmou. Ou seja, acabou a fase “JP, paz e amor”...

 

A propósito: sobre os ataques que vem recebendo nas redes sociais do ex-diretor da secretaria de Saúde, Anthony Johan, o prefeito afirmou que a revolta do ex-amigo se deve ao fato de não ter sido nomeado secretário de Gabinete, e que o comportamento dele agora, só prova o quanto ele não estava preparado para assumir tal cargo. 

 

Perseguição

Ao mesmo tempo, o líder da oposição na Câmara, vereador Tenente Costa (MDB) fez sérias acusações na última sessão, afirmando que o governo tem perseguido funcionários e até mesmo familiares ligados a vereadores da oposição. Um exemplo é o filho do vereador, servidor concursado, e que foi transferido de local. Assim como mentiras nas redes sociais são condenáveis, perseguir familiares também é lamentável. Ao que parece, o que está faltando aos políticos de Carazinho é maturidade para criticar e para receber as críticas. Com isso, todo mundo perde...E, repito, a quem interessa??

 

Banalização

A virada de lado do vereador Everton Huning (PP), que se elegeu como oposição, foi para a situação, migrou para a oposição há pouco mais de um mês, e essa semana se posicionou novamente como aliado do governo não pode simplesmente ser considerada parte do jogo e “vida que segue”. Verdade que a política é dinâmica e muda como uma nuvem, mas nem tudo pode ser naturalizado com a justificativa que “política é assim mesmo”. É por essas e outras que tantas pessoas que poderiam fazer a diferença acabam se afastando da política e é por essas e outras que as abstenções e votos em branco só aumentam nas eleições...

 

Preço I

...Fontes desta coluna informam que para o governo, o resgate do vereador custou um cargo CC7, um CC6 e um CC5, além de outro cargo na Eletrocar e ainda a garantia da presidência da Mesa Diretora no último ano da legislatura, o que colocaria por água abaixo o acordo original da Mesa, que garantia a presidência para a vereadora Berenice Muller em 2028. Ou seja, se o preço do resgate realmente foi esse, foi uma baita puxada de tapete na vereadora Bere, nativa da base e do mesmo partido que o prefeito João Pedro.

 

Preço II

 ...O preço alto supostamente pago pelo apoio se “justifica” numericamente na composição de forças na Câmara. Pode parecer apenas mais um voto, mas é o voto minerva que faltava para garantir a governabilidade com a aprovação de projetos fundamentais para a gestão. Porém, o preço para o governo pode ser ainda mais alto...Entre os vereadores nativos da base, já bateu a ciumeira pelo tratamento hiperinflacionado dado ao vereador do PP. Se já havia insatisfação antes, agora só aumentou...Mesmo assim, a leitura no governo é que trazer os vereadores do PSB sairia ainda mais caro...

 

Defesa (?)

Pode ser apenas uma coincidência, mas na primeira sessão após o resgate do vereador, a defesa do governo que já era fraca por parte da base, ficou mais tímida ainda. Até mesmo o vereador Alaor Tomaz (PDT), que ao que parece vem sendo o vereador preferido do prefeito para aparecer ao lado dele visitando obras, titubeou ao defender o governo de acusações de mau gasto de dinheiro público. Disse que se houver, “não compactua”, mas que “quer acreditar que não exista”. É isso que o líder do governo entende como defesa diante de uma acusação tão grave??

 

Motivos

Em contato com o vereador Everton Huning (quase ex-PP), ele não negou que ganhou espaços no governo, porém, afirmou que foi apenas um cargo para a sua enteada, que já fez parte do governo Milton e que fazia parte do atual governo até o rompimento. Justificou também que a decisão se deu em nome de entrega aos seus eleitores, uma vez que o vereador que está afinado com o governo, consegue ser melhor atendido em suas demandas. Disse, porém, que pretende manter um mandato independente, sem “ser capacho do João Pedro”, com liberdade para votar de acordo com as suas convicções. Sobre o projeto de mais de R$20 milhões para a saúde, que virou queda de braço entre a oposição e o governo, afirmou que se o projeto voltar com os ajustes necessários, irá votar favorável.

 

Diálogo

Huning justificou o seu rompimento recente com o governo, juntamente com demais vereadores, em função da falta de diálogo. “O governo nos cobrava a defesa a qualquer custo”, afirmou, completando que agora acredita que o prefeito aprendeu a valorizar os vereadores da base, e disse mais: “tenho a intuição que o governo vai ter mudanças. Peças vão ser chacoalhadas e vai ter pipoca que vai cair fora da bacia”. Outra frase misteriosa do vereador foi que em breve terá uma movimentação política importante envolvendo o seu nome...Quanto a possível expulsão do PP, disse que o partido lhe faria um favor, já que não há mais clima para permanecer na sigla. 

 

Opção

E faltando cinco meses para as eleições e com a campanha já acelerada nos bastidores, o tabuleiro segue se movimentando... O MDB de Carazinho ainda não desistiu de ter seu candidato à federal, para substituir a lacuna que será deixada por Márcio Biolchi. Como Milton Schmitz não aceitou o desafio, o nome que pode ser lançado é do vereador Márcio Guarapa. Uma reunião segunda-feira em Porto Alegre com o deputado Márcio Biolchi deve ser decisiva para o partido bater o martelo. Segundo o presidente do partido em Carazinho, Tenente Costa, é importante dar mais uma opção aos carazinhenses, impedindo assim que os votos sejam pulverizados para candidatos de fora. A princípio, o partido iria apoiar os nomes de Alceu Moreira e Juvir Costella...

 

Termômetro

A estratégia do MDB em lançar Guarapa para federal pode significar uma tentativa do partido de marcar posição para 2028 e, ao mesmo tempo, oferecer um contraponto aos carazinhenses que não se alinham à atual gestão, que, teoricamente será representada nas urnas por Ronaldo Nogueira, do Republicanos da vice Valéska Walber. O desempenho do deputado, assim como o desempenho de Valéska e Bruno Berté nas urnas em outubro, pode ser um bom termômetro para medir a popularidade da gestão. Isso, é claro, se o prefeito abraçar as candidaturas de Ronaldo, Bruno e Valéska...De qualquer forma, a ligação com a gestão será inevitável. Ou seja, mesmo que o prefeito abra apoio para o candidato Mateus Wesp, de Passo Fundo, o fracasso dos nomes locais ligados à base será interpretado como uma derrota política da administração...