POLÍTICA

“Desarmonia” entre poderes é jogo de perde-perde

Foto Divulgação

 

Infelizmente, Carazinho está vendo de novo um filme já bastante conhecido. O roteiro, aliás, está mais para novela mexicana...A história inicia com um flashback com cenas do início de 2025, com o Executivo conquistando uma maioria absoluta na Câmara, com nove dos treze vereadores. Porém, à medida que o roteiro avança, começam a aparecer sinais de que algo não ia bem, com muitas reviravoltas e plot twists, típicos, aliás, da dinâmica da política...Pula para final de 2026 e o que começa a se ver na tela é uma crise lamentável entre Executivo e Legislativo...Quem dera fosse ficção, mas infelizmente é real, e não há final feliz, porque em uma crise entre dois poderes, quem sai perdendo é a população...

 

“Auto-veto”

Alguns podem pensar que o pivô para a crise foi o “auto-veto” ao projeto de aquisição do terreno para ampliação da Câmara, no valor de R$600mil, enviado pelo próprio prefeito em agosto deste ano. Verdade que um “auto-veto” seria inexplicável, porém, o verdadeiro pivô foi a falta absoluta de articulação política. Afinal, bastaria o prefeito comunicar aos vereadores da base – em especial ao presidente – que de agosto para cá, a situação financeira do município havia se agravado e a compra não seria mais possível. É claro que um gestor deveria saber em agosto como estariam as finanças em outubro, mas mesmo assim, seria justificável...

 

Diálogo

Vale lembrar que apesar da Câmara não possuir orçamento próprio, tem direito a um repasse que permitiria a compra do terreno. Além disso, ainda há a independência entre os poderes que deveria ser respeitada, mas tudo isso poderia ser resolvido com apenas um gesto: diálogo! Ao invés disso, o prefeito permitiu que o projeto fosse à votação, fosse aprovado e vetou. Depois disso, em um gesto conciliatório, até foi a Câmara explicar o motivo do veto. Até esse momento, tudo se encaminhava para uma crise contornável, sem mortos e feridos, mas o caldo entornou de vez quando o prefeito foi às redes sociais anunciar que o seu veto seria derrubado...

 

Usou ou não usou?

A atitude do prefeito foi interpretada pelos vereadores como uma tentativa de colocar a população contra o Legislativo, acusando os vereadores de serem irresponsáveis por estarem tentando aprovar um projeto que “sangraria” os cofres do município e tiraria dinheiro que poderia ir para a saúde. Junta isso com a pilha da oposição em colocar ainda mais lenha na fogueira e tá detonada a bomba, até porque se tem uma coisa que políticos não toleram é serem usados uns pelos outros, e é assim que todos se sentiram...Se ele se aproveitou da situação para inflar a população contra os vereadores e ganhar alguns pontos, nunca saberemos, mas na política, é a narrativa dominante que passa a valer...

 

Ataques

O filme poderia ter acabado por ai, mas não...O prefeito voltou às redes sociais e insinuou interesses escusos na compra do terreno, atingindo diretamente o presidente da Câmara, seu aliado político. Acostumado a gerir crises pelas redes sociais, fez outro vídeo se desculpando, mas já era tarde...O resultado foi uma das sessões com ataques mais violentos a um prefeito já vista na história política de Carazinho, com o agravante de ser praticamente unânime...Vale dizer, inclusive, que alguns pronunciamentos exageram no tom e ficaram longe de qualquer decoro parlamentar...Não era para tanto!

 

“Pegar o casaquinho”

...A exceção do líder do governo, Alaor Tomaz, que “pegou leve”, mas também não demonstrou nenhum esforço para defender a gestão, o prefeito foi duramente criticado por todos os demais vereadores que ocuparam a tribuna, até mesmo os mais fiéis, como Juliani Pinzon, pelos fiéis de ocasião, como Everton Hunning, que afirmou que o governo João Pedro é “vergonha em cima de vergonha” e até mesmo pelo presidente Adriel Machado, que mandou o prefeito “pegar o casaquinho e ir embora”. Aliás, a grande dúvida é se depois do ocorrido, o vereador do PSDB continuará aliado do governo...

A propósito I: a brincadeira do “compra não compra” terreno, acabou custando R$100mil ao contribuinte, que foi o valor do projeto que previa a ampliação da Câmara. Ou seja, rasgaram dinheiro...

 

Déficit

O grande circo armado em cima do veto acabou, porém, desviando a atenção do foco principal do problema: o grande déficit orçamentário nas finanças do município. Isso, sim, mais do que qualquer crise entre os poderes, deveria ser motivo de preocupação. Imagine um município ter menos de R$4 milhões de recursos próprios para investir durante um ano inteiro, que é o que vai acontecer em 2027. Além disso, ainda há o agravante de boa parte do orçamento estar comprometida com despesas previdenciárias.

 

Assessora de crises (?)

... Diante disso, todos os esforços do Executivo e Legislativo deveriam estar voltados a encontrar soluções para que serviços à população não sejam prejudicados, a começar por cortar na própria carne. Não ampliar a Câmara é uma delas, mas poderia passar também por cortar diárias internacionais e não preencher cargos de confiança que porventura fiquem vagos, como de assessor especial de gabinete, um CC5, com salário de R$3.200,00 e que acabou de ser preenchido com o que os vereadores já estão chamando de assessora de crises, já que ninguém sabe exatamente as atribuições de uma assessora especial de gabinete.

A propósito II: fonte próxima ao governo garante que a escolha para o cargo não foi política, já que a assessora representa o partido Missão em Carazinho. A não ser que o prefeito ande namorando com o partido de Renan Santos, como ficam os demais partidos aliados com a escolha de João Pedro para o cargo?

 

Vazamentos

Não resta dúvida que o prefeito maneja bem as redes sociais, há quem diga, inclusive, que ele se sai melhor no ambiente virtual do que no ambiente real ou físico. Porém, ele já deveria ter aprendido que tudo que cai na rede passa a ser incontrolável, ou seja, não existe nenhuma garantia que uma mensagem dita em um grupo privado não se torne pública. Na última semana, uma série de mensagens enviadas pelo prefeito para um grupo da base do governo acabou vazando e se espalhando como pólvora. Quem vazou?? ...A resposta para essa pergunta tá valendo milhões...

 

“Fiel da balança”

Caso o prefeito não consiga acalmar os ânimos da base, em especial, da base flutuante, como o vereador Everton Huning, é quase certo que a Mesa Diretora de 2027 seja da oposição. Inclusive já há um acordo sobre isso, onde Vini Kunrath assume a presidência no ano que vem e 2028 fica garantido para Huning. Segundo o vereador Tenente Costa, a oposição já tem os sete votos para garantir a Mesa, e diante dos últimos acontecimentos, pode vir mais gente...Por enquanto, porém, Everton Huning é o “fiel da balança”...

 

Crise interna

Como se não bastasse a crise com o Legislativo, o prefeito ainda teve que lidar recentemente com uma crise interna no seu partido, o PSDB, por conta da saída um tanto intempestiva do secretário Fábio Zanetti da presidência da sigla. Na carta onde justifica a sua saída, Zanetti cita “decisões políticas tomadas sem consulta ao partido”, se referindo, possivelmente, a nomeações. Porém, a crise interna no partido já havia iniciado com a decisão de Zanetti, apesar de presidir o partido, não aderir a campanha de Juliani Pinzon para deputada federal e apoiar abertamente a candidatura do deputado professor Bonatto, do PSD.

 

Dança de cadeiras

Com a saída de Fábio Zanetti da presidência do PSDB, chegou-se a ventilar que ele poderia deixar a secretaria de Desenvolvimento Social e voltar para a Câmara de Vereadores, na cadeira que vem sendo ocupada por Juliani Pinzon. Porém, segundo Anderson Montai, que assumiu a presidência do partido, nada deve mudar, já que Zanetti tem muitas entregas para fazer ainda na secretaria. Aliás, além da presidência do partido, Anderson assumiu a assessoria de gabinete de Juliani, no lugar de Fabiano de Freitas, que assumiu a secretaria da Fazenda. Sim, parece uma dança de cadeiras onde ninguém fica sem sentar, e é...

 

Limpando as gavetas

Falando em dança de cadeiras, a vitória de Luciano Zucco, do PL, para o governo do estado irá mexer no tabuleiro de cargos na região, a começar pela coordenadoria regional de Educação, que é o mais disputado deles, além do SINE, ambos hoje, nas mãos do PSD. No caso da CRE, a escolha deve respeitar o processo do Qualifica, isso, é claro, caso seja mantido pelo futuro governo. Quem também irá perder os cargos são os carazinhenses Lucas Lopes e Dini Costa, que atuam hoje junto à Casa Civil do governo Eduardo Leite. Será que Lucas pode ser aproveitado no governo João Pedro?

 

Posição

Para não dizer que não falei de eleições, apesar da maioria dos prefeitos da região terem se posicionado publicamente a favor de um dos candidatos à presidência, o prefeito João Pedro ainda se mantem em silêncio sobre a sua posição. Verdade que o voto é secreto, mas diante do acirramento deste segundo turno, o silêncio de lideranças políticas pode ser interpretado como omissão ou até mesmo covardia. Essa coluna entrou em contato com o prefeito que declarou que irá anunciar o seu posicionamento no sábado. Porém, adiantou que no primeiro turno votou pela mudança...

A propósito III: apesar do PSDB nacional ter optado por manter a neutralidade, o PSDB gaúcho declarou apoio ao candidato Flávio Bolsonaro.

Data: 23/10/2026 - 10:58

Fonte: Nadja Hartmann

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