SAÚDE
“Se cuidem, parem, olhem para vocês”, incentiva Bruna Cervo após enfrentar o câncer de mama
Fotos Divulgação/Arquivo Pessoal
Aos 36 anos, Bruna Cervo descobriu um câncer de mama durante uma viagem de férias. Mesmo mantendo os exames de rotina em dia, ela percebeu um caroço na mama apenas quatro meses depois de ter realizado seus exames anuais. Hoje, aos 39 anos, ela compartilha sua história de enfrentamento da doença e o trabalho voluntário que passou a realizar na Liga Feminina de Combate ao Câncer de Carazinho.
Bruna conta que sempre teve o hábito de cuidar da saúde. Todos os anos, no mês de abril, procurava o ginecologista e realizava exames de rotina. Em abril de 2023, os resultados estavam normais. Porém, em agosto daquele ano, durante uma viagem de férias, percebeu um caroço ao tocar a mama enquanto tomava banho no hotel. “Eu comecei a me apalpar e vi que aquele caroço era duro, era grande, era bem palpável”, relata.
Depois de procurar um médico, Bruna realizou mamografia e ultrassonografia. Como o resultado da mamografia foi inconclusivo, o médico solicitou uma biópsia, que confirmou o diagnóstico de câncer de mama.
Ela lembra que recebeu uma ligação da secretária do médico enquanto trabalhava em home office. Ao ser informada de que o médico gostaria de conversar pessoalmente, decidiu ir imediatamente ao consultório, sem avisar a família. Ao chegar, a secretária perguntou se ela estava sozinha. Foi então que Bruna percebeu que precisava avisar o marido e enviou uma mensagem contando onde estava. Ele chegou correndo ao consultório, mas o médico já havia informado a ela o diagnóstico de câncer de mama. “Naquele mesmo momento eu lembro que eu olhei pro doutor e disse assim: Tá, e aí? Tô com câncer de mama, o que tem que fazer?", conta.
O diagnóstico foi de câncer de mama triplo negativo, um tipo de tumor que pode apresentar crescimento rápido e comportamento agressivo. O tumor de Bruna media aproximadamente 3,5 centímetros.
Apesar do impacto da notícia, ela decidiu concentrar suas forças no tratamento. Bruna conta que chorou muito durante dois dias, mas depois procurou manter o pensamento voltado para a recuperação. “Eu disse que Deus não dá nada que a gente não possa carregar, que se Deus me deu, é porque eu podia carregar, porque eu tinha um propósito maior pra isso", salienta.
O tratamento começou com seis sessões de quimioterapia, cada uma com aproximadamente seis horas de duração. Bruna relata que sentia principalmente dores no corpo e nos ossos, além de cansaço, mas conseguiu manter uma rotina de atividades físicas, respeitando os limites do próprio corpo. “Eu sempre fui uma pessoa muito ativa, sempre procurei cuidar da minha alimentação, sempre gostei de praticar atividade”, conta.
Durante o tratamento, ela também enfrentou um dos momentos mais difíceis para muitas mulheres: a queda do cabelo. Com a ajuda de uma amiga, conheceu uma touca gelada artesanal, utilizada durante as sessões de quimioterapia para tentar reduzir a perda dos fios.
A mãe de Bruna a acompanhava no hospital e, a cada meia hora, trocava a touca por outra mais gelada. Mesmo com o cuidado, ela perdeu aproximadamente metade do cabelo.
Bruna conta que cortou os fios curtos logo após descobrir a doença, porque tinha medo de sofrer ainda mais ao vê-los cair. Mesmo assim, ver o cabelo se desprendendo durante o banho e ao pentear era doloroso. “Gente, não falem isso pra uma pessoa que tá passando por um câncer, sabe? Porque já é difícil a gente lidar com a doença, lidar com o diagnóstico, com as adversidades que tem no tratamento, e ainda falar do cabelo machuca, dói bastante”, afirma.
Ela explica que comentários como “o cabelo cresce” podem parecer simples para quem está de fora, mas machucam quem está passando pelo tratamento. Para Bruna, o cabelo também está relacionado à identidade, à autoestima e à forma como a mulher se sente diante das mudanças provocadas pela doença.
Depois das seis sessões de quimioterapia, o tumor diminuiu consideravelmente. Bruna procurou o mastologista Dr. Guerreiro, em Passo Fundo, e conversou com ele sobre a possibilidade de retirar as duas mamas e colocar próteses.
A cirurgia foi realizada com sucesso. Segundo Bruna, os exames dos linfonodos tiveram resultado negativo, e ela conseguiu se recuperar bem do procedimento.
No entanto, enquanto se recuperava da cirurgia, Bruna enfrentou outra situação difícil. Seu pai começou a apresentar problemas de saúde e, após consultas e exames, recebeu o diagnóstico de câncer de pulmão com metástase. Cerca de 45 dias depois da descoberta da doença, ele faleceu, aos 64 anos.
Bruna considera a perda do pai o momento mais difícil de toda a sua trajetória. “Eu acho que o momento mais difícil pra mim foi ter que estar sendo curada e o meu pai falecer de câncer de pulmão. Acho que esse foi o maior desafio que eu enfrentei durante todo esse processo. A minha felicidade de estar sendo curada e ao mesmo tempo a tristeza da perda dele”, relata, emocionada.
Depois dessa experiência, Bruna decidiu procurar a Liga Feminina de Combate ao Câncer de Carazinho. Ela queria ajudar outras pessoas que enfrentam a doença, principalmente aquelas que não têm as mesmas condições financeiras e a mesma rede de apoio que ela teve durante o tratamento.
Na Liga, conheceu melhor o trabalho da entidade e passou a participar do grupo de apoio chamado Chimama, formado por mulheres que estão passando ou já passaram pelo câncer de mama. O nome surgiu da ideia de proporcionar a essas mulheres um momento para tomar chimarrão e conversar, compartilhando experiências durante o tratamento. Os encontros ocorrem na última quarta-feira de cada mês, na sala da Liga, com acompanhamento de uma psicóloga.
Bruna explica que o grupo permite compartilhar experiências, conversar, encontrar acolhimento e trocar informações com outras mulheres que compreendem as dificuldades desse período.
A experiência também fez com que ela levasse à Liga uma preocupação que viveu durante o próprio tratamento: a queda do cabelo.
A partir de recursos de uma emenda parlamentar do deputado Pedro Vilela, a Liga adquiriu um equipamento de resfriamento do couro cabeludo para a oncologia do hospital de Carazinho. Segundo Bruna, o aparelho permite que até quatro mulheres utilizem o equipamento ao mesmo tempo.
A touca gelada pode ajudar a diminuir a queda dos cabelos durante a quimioterapia, mas não garante que os fios sejam totalmente preservados. O uso depende da avaliação e da liberação do oncologista, pois o procedimento não é indicado para todos os tipos de câncer.
Além do equipamento, Bruna destaca outras conquistas da Liga para melhorar a estrutura da oncologia, como camas elétricas, ar-condicionado, painel de senhas e um aparelho de laser utilizado no cuidado de lesões na boca.
O trabalho da entidade também inclui apoio a pacientes em situação de vulnerabilidade social. Por meio de visitadoras que acompanham as necessidades das famílias, a Liga pode auxiliar com cestas básicas, medicamentos e suplementos alimentares, conforme cada situação.
Os recursos para essas ações vêm de projetos sociais, emendas parlamentares e eventos beneficentes realizados pela entidade, como o galeto com massa, o brechó e outras iniciativas que contam com o apoio da comunidade.
Bruna destaca que a participação da população é fundamental para que a Liga continue ajudando os pacientes e suas famílias.“Porque a gente sempre diz que o câncer não acomete só a pessoa que está doente, o câncer acomete a família toda. A família toda passa a sofrer junto com o paciente”, afirma.
Ao compartilhar sua história durante o Outubro Rosa, Bruna também deixa uma mensagem para as mulheres que, na correria do trabalho, dos cuidados com a casa e da família, acabam deixando a própria saúde em segundo plano.
Ela incentiva as mulheres a manterem o acompanhamento médico, realizarem os exames indicados para cada idade e situação e procurarem atendimento ao perceber qualquer alteração nas mamas. O autoexame ajuda a conhecer o próprio corpo, mas não substitui os exames de rastreamento nem a avaliação de um profissional de saúde. “Eu digo que muitas vezes as pessoas dizem pra mim: Ah, Bruna, eu não tenho tempo de fazer atividade física, minha vida é corrida. Aí eu pergunto: Se você não tirar meia hora pra você, quem vai tirar? Se você adoecer, quem vai te cuidar?”, questiona.
Para Bruna, reservar um tempo para cuidar de si mesma é essencial para a saúde e para continuar cuidando das pessoas que ama. "É essa mensagem que eu gostaria de deixar pra todas as mulheres, assim: se cuidem, parem, olhem pra vocês, não só fisicamente, mas internamente. Procurem se movimentar, fazer atividade física. A gente sabe que é corrido, mas é importante”, conclui.
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