GERAL
Os sonhos mudam, a infância passa, mas a vontade de realizar permanece
Foto Mara Steffens/O Correspondente
Toda criança tem sonhos. Alguns querem ser professores, outros imaginam uma carreira no esporte, desejam conhecer lugares ou simplesmente crescer e conquistar a própria independência. Com o passar dos anos, porém, a vida apresenta possibilidades que nem sempre estavam nos planos. Alguns sonhos se realizam, outros ficam pelo caminho e muitos se transformam em novas oportunidades.
Neste Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, a história de Roselene Brescovit e de seu filho Victor permite observar como os sonhos se modificam entre gerações, assim como as brincadeiras, os desafios e a maneira de enxergar o futuro.
Quando era menina, Roselene tinha uma certeza: queria ser professora. A vocação parecia estar presente nas brincadeiras com os amigos da rua, quando assumia o papel de educadora e ensinava outras crianças a ler e escrever. “Eu alfabetizava as crianças da minha rua. Muita gente ia entrar na escola lendo e escrevendo. Eu brincava de ser professora”, recorda.
A infância foi vivida, em parte, no bairro Conceição, em Carazinho. Na memória ficaram as tardes de brincadeiras na rua, as competições de pular elástico, o pega-pega, o esconde-esconde e os jogos de bola. Enquanto as crianças se divertiam, os pais acompanhavam tudo das calçadas, muitas vezes reunidos para tomar chimarrão.
Era uma infância marcada pela convivência entre vizinhos e pela liberdade de ocupar os espaços da comunidade. Roselene lembra que, no Dia das Crianças, os moradores chegavam a fechar a rua para organizar atividades e brincadeiras. Décadas depois, ela observa uma realidade diferente na infância do filho.
Uma infância diferente, novos desafios
Se antes as ruas eram o principal espaço de diversão, hoje as telas disputam a atenção das crianças. Celulares, videogames e televisão passaram a fazer parte da rotina de uma geração que também encontra novas formas de brincar e de se relacionar.
Para Roselene, uma das principais diferenças está na convivência. Ela acredita que as brincadeiras coletivas de sua infância ajudavam a desenvolver amizades, respeito e a capacidade de lidar com situações do cotidiano. A preocupação com a segurança também modificou a relação das famílias com os espaços públicos. Se antes os pais conheciam os vizinhos e acompanhavam os filhos de perto, atualmente, segundo ela, o receio de acidentes e de situações de violência limita a liberdade das crianças.
Victor gosta de futebol e de brincar com os amigos, mas também utiliza recursos digitais. Roselene procura acompanhar essas atividades, especialmente quando envolvem interações pela internet.
Apesar das diferenças entre as gerações, algumas brincadeiras continuam presentes. Durante a entrevista, Victor contou que gosta de jogar bola, brincar de pega-pega e de esconde-esconde. Quando questionado sobre a preferência entre as brincadeiras tradicionais e o videogame, escolheu o pega-pega. Um sinal de que, mesmo em tempos de tecnologia, certas experiências da infância permanecem.
Quando os sonhos encontram outros caminhos
O desejo de ser professora acompanhou Roselene durante boa parte da juventude. Ela cursou magistério e chegou a estudar licenciatura, mas a experiência em sala de aula fez com que reconsiderasse a escolha profissional. “Não consegui realizar o sonho de ser professora”, conta.
A mudança de planos, entretanto, não significou abandonar a possibilidade de construir uma trajetória profissional. Roselene seguiu outro caminho, formou-se em Administração e fez pós-graduação em Logística. Hoje trabalha como coordenadora de faturamento.
O sonho de ensinar permaneceu de outra maneira. Para ela, transmitir conhecimentos e contribuir para a formação de alguém não depende exclusivamente de exercer a profissão de professora. Mas havia outro desejo que também fazia parte de seus planos: ser mãe. A maternidade não aconteceu da maneira que imaginava. Diante da impossibilidade de ter filhos pelos meios naturais, Roselene encontrou na adoção a oportunidade de realizar esse sonho. Foi assim que Vitor passou a fazer parte de sua vida.
A experiência representa uma das transformações mais significativas de sua trajetória. Se a menina que brincava de professora não seguiu a profissão que tanto desejava, a mulher adulta encontrou na maternidade uma realização que também fazia parte de seus sonhos. “Alguns sonhos de infância tomaram outras direções. Até porque a gente amadurece. Quando a gente é criança, tem uma visão lúdica da vida”, reflete.
Para Roselene, compreender que os planos podem mudar é uma das lições que a vida apresenta. “Ao longo da vida a gente vai vendo que os sonhos da gente têm que ser realocados. E tá tudo bem”, aponta.
Os sonhos de Victor
Enquanto Roselene recorda os desejos da infância e os caminhos que percorreu, Victor começa a construir suas próprias expectativas sobre o futuro. O menino sonha em ser jogador de futebol. Em outros momentos, já demonstrou interesse pela carreira de policial rodoviário federal.
São possibilidades que fazem parte do universo de uma criança que ainda tem muitos anos pela frente para descobrir suas habilidades, interesses e escolhas. Mas os sonhos de Victor não se limitam a uma profissão. Ao falar sobre o que deseja para a vida, ele também menciona a vontade de ser gentil, ajudar as pessoas, ter muitos amigos e conquistar uma casa.
Desejos que revelam como o futuro pode ser imaginado de diferentes maneiras, envolvendo tanto realizações profissionais quanto relações pessoais e valores. Roselene procura incentivar o filho a perseguir seus objetivos, mas também a compreender que nem sempre a vida segue exatamente o caminho planejado. “Ele quer ser jogador de futebol. É um sonho que ele tem e vai atrás desse sonho. Mas, se não der certo, tem que saber que vai ter outras formas de se realizar”, menciona.
A experiência pessoal faz com que ela valorize a importância de manter outras possibilidades abertas. Por isso, incentiva Victor a estudar e a descobrir novos interesses.
O que os pais sonham para os filhos?
Quando uma criança nasce ou chega a uma família, novos sonhos também passam a fazer parte da vida dos adultos. Pais e mães imaginam o futuro dos filhos, desejam que tenham oportunidades e procuram oferecer condições para que realizem seus objetivos. Mas os sonhos dos pais nem sempre serão os mesmos dos filhos.
Roselene reconhece essa diferença. Depois de ter vivido mudanças importantes em sua própria trajetória, ela entende que Victor precisará fazer escolhas e encontrar o próprio caminho. Ao ser questionada sobre o que deseja para o futuro do menino, sua resposta vai além de qualquer profissão. “Eu sonho que o Victor seja uma pessoa que realize os sonhos dele. O que eu sempre digo é que a mãe quer que ele seja uma pessoa do bem", comenta.
Ela deseja que o filho tenha valores, ética, responsabilidade e comprometimento. Que estude, construa amizades e encontre felicidade nas escolhas que fizer. Se será jogador de futebol, policial rodoviário federal ou seguirá uma profissão que ainda nem conhece, é algo que somente o tempo poderá responder. “As escolhas são deles, não são nossas. A gente quer que eles escolham um bom caminho. A gente luta pra isso”, afirma.
Sonhar também é aprender a mudar
Entre a menina que brincava de professora nas ruas do bairro Conceição e o menino que hoje sonha em ser jogador de futebol, existem décadas de transformações. Mudaram as brincadeiras, as formas de convivência, os desafios e as oportunidades. O que permanece é a capacidade de imaginar o futuro e desejar que ele reserve boas experiências.
A história de Roselene mostra que os sonhos da infância nem sempre precisam se concretizar exatamente como foram imaginados para continuarem tendo significado. Ela não se tornou professora, mas encontrou satisfação em outra profissão. A maternidade, que parecia distante, tornou-se realidade por meio da adoção. E hoje, ao acompanhar o crescimento de Victor, participa da construção de novos sonhos.
Neste Dia das Crianças, a experiência de mãe e filho convida a uma reflexão: crescer não significa necessariamente deixar os sonhos para trás. Às vezes, significa descobrir que existem outras maneiras de realizá-los.
E talvez uma das maiores demonstrações de amor dos pais seja justamente essa: incentivar os filhos a sonhar, oferecer apoio para que busquem seus objetivos e compreender que, ao longo da vida, eles poderão escolher caminhos diferentes daqueles que um dia imaginaram.