SAÚDE
No Dia da Doação de Órgãos, história de transplantada mostra o impacto de uma decisão que pode salvar vidas
Lourdes ao lado da filha, Letícia, logo após receber um novo rim (Foto Divulgação/Arquivo)
Neste domingo (27), Dia Nacional da Doação de Órgãos, a história de Lourdes Dalla Valle Neis ajuda a mostrar o impacto que uma doação pode ter na vida de quem espera por um transplante. Ela recebeu um rim há um ano e oito meses, depois de enfrentar cerca de quatro anos de hemodiálise.
Durante esse período, Lourdes viveu na expectativa constante de receber a ligação para o transplante. Ela chegou a ser chamada quatro vezes, mas o procedimento não pôde ser realizado por questões de compatibilidade. Em algumas situações, chegou a viajar até Porto Alegre para fazer exames e acabou retornando para casa.
Foi somente na quinta chamada que o órgão compatível apareceu. Até então, ela realizava hemodiálise três vezes por semana no Hospital de Clínicas de Carazinho e precisava manter exames, consultas e demais cuidados de saúde sempre em dia.
Depois do transplante, Lourdes conta que sua rotina mudou completamente. “Tudo. A qualidade de vida, saber que não dependo mais da máquina para sobreviver, poder realizar minhas atividades com mais ânimo e força, sair e poder viajar sem ter o compromisso de estar três vezes na semana na máquina”, relatou.
Hoje, ela reforça a importância da doação de órgãos e lembra que qualquer pessoa pode, um dia, estar do outro lado, esperando por um transplante. “Não sabemos o dia de amanhã. Pode ser nós ou alguém da nossa família precisando de um órgão. Você está doando esperança e uma qualidade de vida a mais para quem precisa”, destacou Lourdes.
A experiência de quem recebe um órgão representa um dos lados de um processo que também envolve famílias diante do luto, decisões difíceis e o trabalho das equipes de saúde responsáveis por acolher e orientar os familiares.
Trabalho no HCC
Em Carazinho, o Hospital de Clínicas de Carazinho (HCC) conta com a atuação da Equipe de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (EDOTT), que acompanha os casos e presta suporte durante todo o processo.
Segundo Grasiela Negri, responsável pela EDOTT, em 2026 o HCC realizou, até o momento, uma captação de órgãos, ocorrida no mês de março. Na oportunidade, foram captados rins e fígado.
Grasiela explica que a abordagem com a família do possível doador é feita com muito cuidado e respeito. Antes mesmo de falar sobre a doação, a equipe busca acolher os familiares, criar uma relação de confiança e verificar se todos compreenderam a situação clínica do paciente.
Entre as principais dificuldades encontradas estão o momento do luto, a compreensão do diagnóstico de morte encefálica, a esperança de recuperação, o choque emocional, conflitos familiares e também a falta de conhecimento sobre a vontade do paciente em relação à doação.
Em alguns casos, conforme Grasiela, também existe resistência por parte das famílias, principalmente devido ao tempo necessário para a realização do processo de captação e pela falta de informações sobre a doação de órgãos. Por isso, a equipe reforça que explicar cada etapa de forma clara, respeitosa e transparente é fundamental.
A principal orientação para quem deseja ser doador é conversar com a família ainda em vida e deixar essa vontade bem clara. Esse diálogo é considerado essencial para que os familiares conheçam e possam respeitar a decisão no momento necessário.
As histórias de quem espera por um órgão e de quem participa do processo de doação mostram os dois lados de uma mesma realidade. De um lado, pessoas como Lourdes, que aguardam por uma nova oportunidade de vida. De outro, famílias e profissionais de saúde envolvidos em um processo que exige acolhimento, informação e respeito.
Por isso, neste Dia Nacional da Doação de Órgãos, o diálogo sobre o tema dentro das famílias permanece como uma das principais formas de deixar clara a vontade de ser doador e possibilitar que essa decisão seja conhecida no momento necessário.
Manifestação em vida
Embora a decisão final sobre a doação de órgãos sempre cabe à familia, é possível manifestar o desejo de doação através de um registro em cartório, por meio da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, um documento digital e oficial criado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) junto ao Colégio Notarial do Brasil. Ele permite declarar quais partes do corpo, tecidos ou órgãos você deseja doar após o falecimento e fica integrado à base de dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) para consulta de médicos e autoridades.
Em Carazinho, os dois tabelionatos apontam uma redução na procura pelo registro da vontade de ser doador ao longo de 2026. No 2° Tabelionato de Carazinho, foram realizadas 12 autorizações de doação de órgãos e tecidos neste ano, até o momento. Segundo Rafael Fritzen, o número representa uma redução de praticamente 90% em comparação com 2025.
Conforme Rafael, a procura pelas declarações costuma acompanhar as campanhas públicas realizadas sobre o tema. Em 2023, por exemplo, quando a declaração por meio de escritura pública foi instituída, o tabelionato chegou a registar quase 200 autorizações, resultado também das campanhas de incentivo e divulgação realizadas naquele período.
Atualmente, existem duas formas gratuitas de registrar a vontade de ser doador. Uma delas é presencialmente, quando o interessado procura um Tabelionato de Notas e realiza uma escritura pública declarando o desejo de doar órgãos e tecidos após a morte. Neste caso, são necessários documento de identidade e CPF, e a declaração é encaminhada a Central Estadual de Transplantes do Rio Grande do Sul.
Outra possibilidade é através da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, a AEDO. O procedimento pode ser realizado pela plataforma e-Notariado. O interessado faz a solicitação, participa de uma videoconferência para confirmar sua identidade e sua vontade e assina digitalmente a autorização. O procedimento não possui custo e o registro pode ser alterado ou cancelado a qualquer momento.
No 1º Tabelionato de Carazinho, o tabelião Gilmar Antônio Seger também relatou uma redução na procura neste ano. No entanto, o local não possui o número exato de autorizações realizadas em 2026. Segundo ele, isso acontece porque os atos eletrônicos são feitos diretamente na plataforma do e-Notariado, gerenciada pelo Colégio Notarial do Brasil. O tabelionato participa da confirmação da intenção do doador através da videoconferência.
Apesar de uma pessoa deixar oficialmente registrada a vontade de ser doadora, a conversa com a família continua sendo fundamental. Rafael Fritzen explica que, conforme determina a legislação brasileira, mesmo com a autorização registrada, a doação somente acontece mediante autorização familiar no momento da morte.
Segundo ele, o documento não substitui a decisão dos familiares, mas pode ajudar a deixar clara a vontade manifestada em vida e facilitar essa decisão em um momento de dor.
Rafael destaca ainda que cerca de 40% das notificações de morte encefálica no Rio Grande do Sul não resultam em doação por falta de autorização familiar. Por isso, além de formalizar a intenção, uma das principais orientações é conversar com a família e deixar claro o desejo de ser doador.