GERAL
Com ajuda da filha que vive em Carazinho, agricultor de Lagoa dos Três Cantos reencontra irmão após 65 anos de separação
Foto Divulgação/Arquivo Pessoal
Durante 65 anos, José Dengaten carregou consigo uma saudade e uma pergunta que nunca deixaram de existir: onde estaria seu irmão Simblicio? Morador de Lagoa dos Três Cantos, José era ainda uma criança quando os caminhos dos dois irmãos se separaram. O reencontro, que durante décadas parecia distante, finalmente aconteceu no dia 15 de agosto de 2026, em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha.
A história começou ainda na infância. Os pais de José, Etvino e Hedivirges Dengaten, viviam em uma colônia de terras em Selbach. A família deixou o município e se mudou para Não-Me-Toque, onde passou a enfrentar dificuldades financeiras depois que o pai sofreu um acidente e ficou um longo período sem poder trabalhar.
José tinha apenas quatro anos quando sua vida tomou um novo rumo. Durante uma festa de inauguração de um pavilhão próximo à igreja evangélica de Não-Me-Toque, ele estava com os irmãos Armindo e Simblicio quando a mãe se aproximou e disse que ele iria “passear”. José foi colocado entre um casal que seguia em uma diligência puxada por dois cavalos.
Era o início de uma nova história. Ele foi levado para o interior por Carlos Alberto e Holdina Scheffel Baches, que o adotaram. O casal não tinha filhos e passou a criá-lo como tal. “Passaram a me educar, me ensinando tudo que eu precisava. Com isso, compomos uma família”, relembra José.
Aos 14 anos, diante do adoecimento do pai adotivo, José assumiu os trabalhos na roça. Mais tarde, aos 21 anos, casou-se com Iraci Cadore. O casal teve dois filhos, Renato Carlos e Renata Vanice. A vida seguiu, mas a lembrança dos irmãos permaneceu.
José conta que Miguel e Maria, irmãos mais velhos, já haviam saído de casa antes de seu nascimento e posteriormente faleceram. Armindo permaneceu com a família, mas Simblicio tomou outro caminho: também foi levado para outra família, os Marodim, de Passo Fundo. A partir daí, o contato entre os dois foi completamente perdido.
Durante anos, José tentou encontrar o irmão, mas as buscas não tiveram resultado. Até que decidiu procurar uma nova pista. Ele consultou o cartório civil de Selbach e recebeu uma informação que reacendeu a esperança: o CPF de Simblicio ainda estava ativo.
José então contou à filha Renata sobre a descoberta. Advogada e moradora de Carazinho, ela assumiu a busca e passou a reunir informações, cruzar pistas e procurar pelo tio que a família não via há décadas. Foi aí que a família percebeu que durante todos estes anos de procura, um detalha havia passado despercenido. A busca sem sucesso sempre foi pautada no nome do tio com uma letra diferente da qual ele havia sido registrado: Procuraram por Simplício, com "P", ao invés de Simblício, com "B", como constava na documentação.
Depois de muito trabalho e dedicação, Renata conseguiu localizar Simblicio. A notícia abriu caminho para um encontro que José esperou por mais de seis décadas. No dia 15 de agosto, acompanhado da esposa Iraci, da filha Renata e do neto Luis Augusto, José viajou até Nova Petrópolis. Foi lá que, depois de 65 anos de separação, os dois irmãos finalmente ficaram frente a frente novamente.
Simblicio atualmente vive em uma casa geriátrica no município, onde, segundo José, é muito bem atendido. O reencontro foi marcado pela emoção de recuperar, em poucas horas, uma parte da história familiar que havia ficado perdida por mais de meio século. “Foi muito emocionante o esperado reencontro. Mais um sonho realizado com muita alegria”, conta José.
Para ele, porém, o reencontro não representa um ponto final. É o começo de uma nova etapa. Depois de passar 65 anos sem saber onde estava o irmão, José agora pretende transformar a distância em proximidade. “Sim, muito feliz por tê-lo encontrado. Com certeza vamos nos visitar seguido”, afirma.
A história de José e Simblicio mostra que alguns vínculos, mesmo separados pelo tempo e pelas circunstâncias da vida, permanecem vivos. E que, às vezes, basta uma última tentativa, uma pista e alguém disposto a não desistir para que uma espera de 65 anos finalmente termine com um abraço.
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